ELETROHISTORIOGRAMA

 

Eletrocardiograma é um processo por meio do qual registram-se, através de um aparelho chamado eletrocardiógrafo, os fenômenos elétricos originados durante a atividade cardíaca. A história está para os eventos como o eletrocardiógrafo está para a atividade cardíaca. Por sua vez, o coração está para o corpo como o homem em sociedade está para o mundo. Considerando tal analogia, é possível visualizar o registro dos eventos históricos como se olhássemos aquela conhecida imagem (na tela ou na folha de papel) da linha horizontal constantemente verticalizada a cada batida do coração; a história, com suas rupturas, é uma constante produtora de fenômenos que morrem num instante para renascer em esperança em outro.

Se compararmos a sociedade atual com a de milhares de anos atrás, as mudanças históricas são evidentes: nós não vivemos mais em cavernas nem caçamos para comer. Entre os eventos históricos, uma das mudanças mais significativas foi a formação de um conjunto de símbolos (linguagem) que permitiu ao homem se comunicar e se organizar. Outro, não menos importante, e consequencia daquele, foi a formação da sociedade .

Obviamente, nenhum desses dois acontecimentos passou intacto ao longo dos anos. A humanidade vivenciou períodos de domínio da igreja, dos reis e da nobreza, da burguesia, do socialismo e do capitalismo. Viu revoltas e revoluções, enfim, as mais variadas mudanças. Como Ahasverus, personagem do conto machadiano “Viver!”, que também viu “as gerações ligaram-se umas às outras, os heróis dissiparem-se em mitos na penumbra, ao longe, e a história ir caindo aos pedaços, não lhe ficando mais que duas ou três feições vagas e remotas”.

Os dois marcos mais recentes, ou seja, a queda da Bastilha, na Revolução Francesa, que prometia “liberdade, igualdade e fraternidade”, e a queda do muro de Berlin, que anunciava o fim da Guerra Fria e prometia uma nova ordem mundial, proporcionaram grandes alterações nas sociedades de suas respectivas épocas e, de certa forma, cumpriram parte do que se propuseram. Afinal, teoricamente, os países hoje vivem baseados nos ideais de igualdade, liberdade e democracia.

Entretanto, ainda há muito o que ser feito. O absolutismo acabou, mas a democracia ainda não se manifesta como deveria. A Guerra Fria terminou, porém muitos outros conflitos acontecem sem uma proposta de resolução. O socialismo real mostrou-se menos eficaz do que parecia, e o capitalismo ainda não provou ser o melhor sistema de organização social, pelo contrário, deixa entrever grandes brechas. Houve a Revolução Industrial e a criação de novas tecnologias continua, mas continua também o desemprego, a desigualdade social e a fome. A observação disso tudo nos torna, apesar da contradição, ao mesmo tempo céticos e confiantes. Céticos, diante da aparente mesmice histórica que se pode observar. E confiantes ao entendermos que a utopia da mudança é justamente o que mantém a agulha do eletrohistoriograma constantemente em movimento.