Redação de Laís Guapo 1º lugar do Jornal Mundo
2008: ainda um espírito de monarquia?
Em 4 de março deste ano foi realizado na mansão de Lily Marinho um grande jantar para se comemorar os duzentos anos da transferência da corte portuguesa para o Brasil. Nessa festa estiveram presentes cento e cinqüenta convidados da alta sociedade brasileira, além de um representante da própria família Bragança, tetraneto de D. Pedro. Foi marcante a ostentação com que o local foi decorado, dos detalhes das velas às flores douradas no jardim, da prataria até os pratos com o brasão da Família Real. “Os grandes banquetes eram assim. Sempre sonhei com uma festa dessas”, declarou uma convidada.
Esse jantar pode ser comparado à tradição dos bailes oferecidos pela monarquia no período do Império, em que o luxo e os excessos tinham espaço garantido nas colunas dos jornais. Talvez a mais famosa dessas festas tenha sido o baile da Ilha Fiscal, última festa da monarquia antes da Proclamação da República, ocasião em que, segundo relatos não confirmados, D. Pedro II, após um tombo, teria dito: “O monarca escorregou, mas a monarquia não caiu”.
Festas em períodos tão distintos, mas com características tão semelhantes, fazem-nos questionar até que ponto a configuração social brasileira mudou desde a tão falada vinda da corte de D. João VI ao Brasil.
Se traçarmos um paralelo, assim como em 1808, quando brasileiros foram desalojados de suas residências para abrigar os nobres que acabavam de chegar, hoje muitos brasileiros são privados do direito a uma moradia digna para outros poucos se abrigarem em condomínios luxuosos. Se as faculdades de engenharia e medicina criadas por D. João tinham exclusividade de acesso aos filhos de nobres e da oligarquia brasileira, hoje a educação de qualidade é ainda privilégio das elites. Se D. João mantinha o luxo da corte com os favores daqueles que tinham posses e, em troca, concedia títulos de nobreza, nossa realidade política mantém a mesma lógica de troca de favores, conchavos e interesses particulares acima dos públicos.
Portanto, neste ano de revisão do significado da chegada da corte portuguesa ao Brasil, não devemos apenas nos preocupar com a questão de ter sido uma fuga ou estratégia de D. João VI, ou com a criação de caricaturas das figuras históricas envolvidas, mas principalmente precisamos refletir sobre as conseqüências dessa vinda para nossas relações sociais, no que diz respeito à dependência econômica e à concentração de riqueza nas mãos de uma elite com pompa de corte.

Laís Guapo, 1ª série do Ensino Médio